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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A literatura Marginal do séculoXXI (Trabalhar é Crime de Angelina Miranda)

A literatura marginal , periférica ou do oprimido cresce consideravelmente e nossos autores e autoras surgem a cada novo dia ,com textos de reflexão e contestadores , idéias que não  se acomodam nas cadeiras de cátedra e sim percorrem as ruas ,becos, vielas ,palafitas e se acomodam no coração do povo sofrido da periferia ,que encontram nesses textos um pouco de sua história ,contada, cantada e escrita por pessoas que vivenciam as mesmas coisas, partilham do mesmo sofrimento, e a paulista do signo de aquário Angelina Miranda ,jornalista não é indiferente à essas dores ,leiam o texto "Trabalhar é crime" dessa grande escritora e conheçam mais sobre o seu trabalho no blog  Poesias Angelinas  .
Angelina Miranda

Trabalhar é crime
 Minhas sacolas balançavam no compasso de minhas pernas, e os fracos raios sol aqueciam meus braços desnudos.
Estava estranhamente feliz, vendo meu bairro como se fosse pela primeira vez, secando os rostos que por mim passavam ligeiramente.
Finalmente não estava em um ônibus lotado, cultivando ódio por pessoas fodidas como eu, que sem querer acabavam por me socar como massa de pão.
Mas,  naquele dia estava satisfeita com a vida, pelas coisas simples...
Depois de caminhar um pouco vi um carrinho com bonitos cachecóis, tinha meias e luvas também. Enquanto olhava fui impedida de ver todos os produtos, pois num sopro as coisas estavam sendo ensacadas violentamente.
No meio das pessoas que se aglomeravam, vi no rosto de uma senhora preta o porquê.
As mãos enrugadas, levadas à cabeça seguravam desesperadamente os cabelos. As lágrimas umedeciam seu rosto chutado pelos sofrimentos. Preferi naquele momento que continuasse seco.
 - Pelo amor de Deus não leva minhas coisinha não, é tudo que eu tenho!
Parei para que os leões me comessem por dentro sem estardalhaço.
Meus olhos boiavam inertes como dois mortos.  A brutalidade e injustiça racional em carne, osso e farda. 
Os homens agiam mecanicamente, e cheguei a desconfiar se eram mesmo humanos. Um com cara de pedra segurava a mulher e respirava o ar de dever cumprido, o outro com olhar obscuro guardava os pertences que mais tarde serviriam de presente para seus amigos e familiares.
Minha impossibilidade de agir, arrancou-me os braços. Minhas sacolas estavam no chão assim como aquela mulher.  

Angelina Miranda

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